Direção
da Folha de São Paulo autoriza
xingamento a repórteres do jornal
A LEITURAS DA FOLHA
Repórteres no pelourinho
Por Leandro Fortes em 9/3/2010
Fonte: Observatório da Imprensa
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.
Reproduzido do blog do autor, 9/3/2010
A direção da Folha
de S.Paulo, simplesmente, autorizou a um elemento estranho à
redação (mas não aos diretores), o sociólogo
Demétrio Magnoli, a chamar de "delinquentes"
dois repórteres do jornal, autores de matéria
sobre a singular visão do senador Demóstenes Torres
(DEM-GO) da miscigenação racial no Brasil. Vocês,
não sei, mas eu nunca vi isso na minha vida, nesses 24
anos de profissão. Nunca. Por tabela, também o
colunista Elio Gaspari, que desceu a lenha no malfadado discurso
racista de Demóstenes Torres, acabou no balaio da delinquência
jornalística montado por Magnoli.
Das duas uma: ou a Folha dá direito de resposta aos repórteres
insultados (Laura Capriglione e Lucas Ferraz), como, imagino,
deve prever o seu completíssimo Manual de Redação,
ou encerra as atividades. Isso porque Magnoli, embora frequente
os saraus do Instituto Millenium, não entende absolutamente
nada de jornalismo e confundiu reportagem com opinião.
A matéria de Laura e Lucas nada tem de ideológica,
nem muito menos é resultado de "jornalismo engajado"
(contra o DEM, na Folha??). A impressão que se tem é
que houve falha nos filtros internos da Redação
e deixaram passar, por descuido ou negligência, uma matéria
cujas conseqüências aí estão: o senador
Torres, sujeito oculto da farsa do grampo montada em consórcio
entre a Veja e o STF, virou, também, o símbolo
de um revisionismo histórico grotesco, no qual se estabelece
como consensual o estupro de mulheres negras nas senzalas da
Colônia e do Império do Brasil.
Rumos finais
A reação interna
à repercussão de uma matéria elaborada
por dois repórteres da sucursal de Brasília, terceirizada
por Demétrio Magnoli, é emblemática (e
covarde), mas não diz respeito somente à Folha
de S.Paulo. O artigo "Jornalismo delinquente" [ver
íntegra abaixo], publicado na edição de
terça-feira (9/3), na seção "Tendências/Debates"
da pág. 3 do jornal, nada tem a ver com políticas
de pluralidade de opiniões, mas com intimidação
pura e simples voltada para o enquadramento de repórteres
e editores – e não só da Folha – para
os tempos de guerra que se aproximam.
A recusa de Aécio Neves em ser vice de José Serra
deverá jogar o DEM, outra vez, no vácuo dos tucanos,
a reviver a dobradinha iniciada entre Fernando Henrique Cardoso
e o PFL, de triste lembrança. O imenso mal estar causado
pela fala de Demóstenes Torres na tribuna do Senado Federal,
resultado do trabalho rotineiro de dois repórteres, acabou
interpretado como inaceitável fogo amigo. Capaz, inclusive,
agora, de a dupla de jornalistas correr perigo de empregabilidade,
para usar um termo caro à equipe econômica tucana
dos tempos de FHC.
Demétrio Magnoli, impunemente, chama a reportagem da
Folha de S.Paulo de "panfleto disfarçado de reportagem",
afirmação que jamais faria, e muito menos a publicaria,
sem autorização da direção do jornal,
precedida de uma avaliação editorial e política
bastante criteriosa. O fato de se ter permitido a Magnoli, um
dos arautos da tese conceitualmente criminosa de que não
há racismo no Brasil, insultar dois repórteres
e o principal colunista da Folha, em espaço próprio
dentro de uma edição do jornal, deixa a todos
– jornalistas e leitores – perplexos com os rumos
finais da velha mídia e de seu inexorável suicídio
editorial em nome de uma vingança ideológica,
ora baseada em doutrina, ora em puro estado de ódio racial
e de classe.
***
O jornalismo delinquente
Demétrio Magnoli # reproduzido da Folha de S.Paulo, 9/3/2010
As pessoas, inclusive os jornalistas, podem ser contrárias
ou favoráveis à introdução de leis
raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não
é necessário, contudo, falsear deliberadamente
a história como faz o panfleto disfarçado de reportagem
publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione
e Lucas Ferraz ("DEM corresponsabiliza negros pela escravidão",
Cotidiano, 4/3).
A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento
do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência
do STF sobre cotas raciais inscreve no título a chave
operacional da peça manipuladora.
O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes
fantasiados de repórteres substituíram "africanos"
por "negros", convertendo uma explanação
factual sobre história política numa leitura racializada
da história.
Não: ninguém disse que a "raça negra"
carrega responsabilidades pela escravidão. Mas se entende
o impulso que fabrica a mentira: os arautos mais inescrupulosos
das políticas de raça atribuem à "raça
branca" a responsabilidade pela escravidão.
Num passado recente, ainda se narrava essa história sem
embrulhá-la na imaginação racial. Dizia-se
o seguinte: o tráfico atlântico articulou os interesses
de traficantes europeus e americanos aos dos reinos negreiros
africanos. Isso não era segredo ou novidade antes da
deflagração do empreendimento de uma revisão
racial da história humana com a finalidade bem atual
de sustentar leis de divisão das pessoas em grupos raciais
oficiais.
Demóstenes Torres disse o que está nos registros
históricos. Os repórteres a serviço de
uma doutrina tentam fazer da história um escândalo.
O jornalismo que abomina os fatos precisa de ajuda. O instituto
da escravidão existia na África (como em tantos
outros lugares) bem antes do início do tráfico
atlântico. Inimigos derrotados, pessoas endividadas e
condenados por crimes diversos eram escravizados. A inexistência
de um interdito moral à escravidão propiciou a
aliança entre reinos africanos e os traficantes que faziam
a rota do Atlântico. Os empórios do tráfico,
implantados no litoral da África, eram fortalezas de
propriedade dos reinos africanos, alugadas aos traficantes.
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, convocado para envernizar
a delinquência histórica dos repórteres
("África não organizou tráfico, diz
historiador" ), conhece a participação logística
crucial dos reinos africanos no negócio do tráfico.
Mas sofreu de uma forma aguda e providencial de amnésia
ideológica ao afirmar, referindo-se ao tráfico,
que "toda a logística e o mercado eram uma operação
dos ocidentais".
Os grandes reinos negreiros africanos controlavam redes escravistas
extensas, capilarizadas, que se ramificavam para o interior
do continente e abrangiam parceiros comerciais estatais e mercadores
autônomos. No mais das vezes, a captura e a escravização
dos infelizes que passaram pelas fortalezas litorâneas
eram realizadas por africanos.
Num livro publicado em Londres, que está entre os documentos
essenciais da história do tráfico, o antigo escravo
Quobna Cugoano relatou sua experiência na fortaleza de
Cape Coast: "Devo admitir que, para a vergonha dos homens
de meu próprio país, fui raptado e traído
por alguém de minha própria cor". Laura e
Lucas, na linha da delinquência, já têm o
título para uma nova reportagem: "Negros corresponsabilizam
negros pela escravidão".
O tráfico e a escravidão interna articulavam-
se estreitamente. No reino do Ndongo, estabelecido na atual
Angola no século 16, o poder do rei e da aristocracia
apoiava-se no domínio sobre uma ampla classe de escravos.
No Congo, a população escrava chegou a representar
cerca de metade do total. O reino Ashanti, que dominou a Costa
do Ouro por três séculos, tinha na exportação
de escravos sua maior fonte de renda. Os chefes do Daomé
tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para
vender escravos sob a proteção de d. Pedro 1º.
Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que "o tráfico
de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza".
Em 1872, bem depois da abolição do tráfico,
o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando
a retomada do comércio de gente.
O providencial esquecimento de Alencastro é um fenômeno
disseminado na África. "Não discutimos a
escravidão", afirma Barima Nkye 12, chefe supremo
do povoado ganês de Assin Mauso, cuja elite descende da
aristocracia escravista ashanti. Yaw Bedwa, da Universidade
de Gana, diagnostica uma "amnésia geral sobre a
escravidão".
Amnésia lá, falsificação, manipulação
e mentira aqui. Sempre em nome de poderosos interesses atuais.
[Demétrio Magnoli, sociólogo, é autor de
Uma Gota de Sangue – História do Pensamento Racial"
(SP, Contexto, 2009)]
10/03/2010