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"Soldado Medeiros"
Tendo
o velho Gonçalo, viúvo, sem filho varão,
se escusado a colaborar, para a sua surpresa, a filha
Maria Quitéria, pediu-lhe autorização
para se alistar. Tendo o pedido negado pelo pai, fugiu,
dirigindo-se a casa de sua meia-irmã, Teresa
Maria, casada com José Cordeiro de Medeiros
e, com o auxílio de ambos, cortou os cabelos.
Vestindo-se como um homem, dirigiu-se à vila
de Cachoeira, onde se alistou sob o nome de Medeiros,
no Regimento de Artilharia, onde permaneceu até
ser descoberta pelo pai, duas semanas mais tarde.
Defendida
pelo Major José Antônio da Silva Castro
(avô do poeta Castro Alves), comandante do Batalhão
dos Voluntários do Príncipe (popularmente
apelidado de "Batalhão dos Periquitos",
devido aos punhos e gola de cor verde de seu uniforme),
foi incorporada a esta tropa, em virtude de sua facilidade
no manejo das armas e de sua reconhecida disciplina
militar. Aqui, ao seu uniforme, foi acrescentado um
saiote à escocesa.
A
29 de outubro seguiu com o seu Batalhão para
participar da defesa da ilha de Maré e, logo
depois, para Conceição, Pituba e Itapoã,
integrando a Primeira Divisão de Direita.
Em fevereiro de 1823, participou com bravura do combate
da Pituba, quando atacou uma trincheira inimiga, onde
fez vários prisioneiros portugueses (dois,
segundo alguns autores), escoltando-os, sozinha, ao
acampamento.
Em
31 de março, no posto de Cadete, recebeu, por
ordem do Conselho Interino da Província,
uma espada e seus acessórios.
Finalmente,
a 2 de julho de 1823, quando o "Exército
Libertador" entrou em triunfo na cidade
do Salvador, Maria Quitéria foi saudada e homenageada
pela população em festa. O governo da
Província dera-lhe o direito de portar espada.
Na condição de Cadete, envergava uniforme
de cor azul, com saiote, além de capacete
com penacho.
A heroína
da Independência
Por
seus atos de bravura em combate, o General Pedro Labatut,
enviado por D. Pedro para o comando geral da resistência,
conferiu-lhe as honras de 1º Cadete.
No
dia 20 de agosto foi recebida no Rio de Janeiro pelo
Imperador em pessoa, que a condecorou com a Imperial
Ordem do Cruzeiro, no grau de Cavaleiro, com seguinte
pronunciamento:
"Querendo
conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo
que assinala os Serviços Militares que com
denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à
Causa da Independência deste Império,
na porfiosa restauração da Capital da
Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia
de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro".
Além
da comenda, foi promovida a Alferes de Linha, posto
em que se reformou, tendo aproveitado a ocasião
para pedir ao Imperador uma carta solicitando ao pai
que a perdoasse por sua desobediência.
Os
últimos anos
Perdoada
pelo pai, Maria Quitéria casou-se com o lavrador
Gabriel Pereira de Brito, o antigo namorado, com quem
teve uma filha, Luísa Maria da Conceição.
Viúva,
mudou-se para Feira de Santana em 1835, onde tentou
receber a parte que lhe cabia na herança pelo
falecimento do pai no ano anterior. Desistindo do
inventário, devido à morosidade da Justiça,
mudou-se com a filha para Salvador, nas imediações
de onde veio a falecer aos 61 anos de idade, quase
cega,
no anonimato.
Os seus restos mortais estão sepultados na
Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento e Sant'Ana,
no bairro de Nazaré em Salvador. [1]
Testemunhos
O
pesquisador Aristides Milton, nas Efemérides
Cachoeiranas, considera Maria Quitéria
"tão valente quanto honesta senhora".
A
inglesa Maria Graham, por sua vez, deixou registrado:
"Maria
de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência
clara e percepção aguda. Penso que,
se a educassem, ela se tornaria uma personalidade
notável. Nada se observa de masculino nos seus
modos, antes os possui gentis e amáveis."
(Journal of a voyage to Brazil)
Homenagens
Maria
Quitéria é homenageada por uma medalha
militar e por uma comenda com o seu nome, na Câmara
Municipal de Salvador. Do mesmo modo, a Câmara
Municipal de Feira de Santana instituiu a Comenda
Maria Quitéria, para distinguir personalidades
com reconhecida contribuição à
municipalidade, e ergueu-lhe um monumento na cidade,
no cruzamento da avenida Maria Quitéria com
a Getúlio Vargas.
A
sua iconografia mais conhecida é um retrato
de corpo inteiro, pintado por Domenico Failutti c.
1920. Presenteado pela Câmara Municipal de Cachoeira,
integra atualmente o acervo do Museu Paulista, em
São Paulo.
Por
Decreto da Presidência da República,
datado de 28 de junho de 1996, Maria Quitéria
foi reconhecida como Patrona do Quadro Complementar
de Oficiais do Exército Brasileiro. A sua imagem
encontra-se em todos os quartéis, estabelecimentos
e repartições militares da Arma, por
determinação ministerial.
Notas
-
↑Igreja
de SantAna será restaurada A Tarde On
Line. Consultado em 19 ago. 2009.
Bibliografia
-
ALMEIDA, Norma Silveira Castro
de; TANAJURA, A. Rodrigues Lima. José
Antônio da Silva Castro - o Periquitão.
Salvador: EGBA, 2004. ISBN 85-903965-1-7
-
AMARAL, Braz do. História
da Independência da Bahia. Salvador:
Livraria Progresso Ed., 1957.
-
MENDES, Bartolomeu de Jesus.
A Festa do Dois de Julho em Caetité
- do cívico ao popular. Caetité:
Gráfica Castro, 2002.
-
PALHA, Américo. Soldados
e Marinheiros do Brasil. Rio de Janeiro:
Biblioteca do Exército-Editora, 1962.
p. 47-51.
-
SILVA, Joaquim Norberto de
Souza. Brasileiras Célebres (ed.
fac-similar). Brasília: Senado Federal,
1997.
-
SOUZA, Bernardino José
de. Heroínas baianas.
-
TAVARES, Luís Henrique
Dias. História da Bahia. Salvador:
UNESP; São Paulo: EDUFBA, 2001.
Fontes:
Jornal Feira Hoje
Wikipédia,
a Enciclopédia Livre
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