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A História é Nossa

Everaldo Goes Jornalista e Historiador

Esta seção tem o objetivo de despertar e incentivar a comunidade sobre a importância do conhecimento histórico para a construção da sociedade que desejamos

Intolerância – sempre viva
e presente. Por quê?

Enquanto a grande imprensa enfoca o mundo islâmico, acusando aqueles povos da prática da intolerância, no Brasil, inclusive na Bahia e até mesmo em Feira de Santana, têm-se observado o fenômeno da rejeição do outro, mesmo que sem motivos aparentes ou significantes.

Professores universitários acusam situações em que jovens formam grupos exclusivistas, ora de segmentos religiosos, de classes sociais, de cursos de graduação tidos, equivocadamente, como superiores a outros, ora de grupos étnicos.

Não é incomum o preconceito demonstrado contra colegas que conseguiram acesso ao ensino superior através das políticas afirmativas, também chamadas de sistema de cotas, como as praticadas por instituições como a Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), elogiadas e consideradas por especialistas como uma das mais inclusivas do país.

No grupo de vítimas da intolerância estão os indígenas (considerando-se todos os povos habitantes das Américas antes do descobrimento). Trata-se de um capítulo à parte no contexto da intolerância e do poder. Trata-se de um caso de “segurança nacional”. Por quê? Simplesmente porque na condição de primeiros habitantes do continente e na hipótese de, hoje, adquirirem cidadania, formação superior, inclusão social e conhecimento sobre as engrenagens do Brasil de cá, os índios poderiam começar a reivindicar direitos e, conseqüentemente, o que foi expropriado dos ancestrais. “Melhor, então, deixá-los onde estão”, pensam alguns.

Qual a origem deste preconceito? Habitantes das Américas, os índios tiveram antepassados dizimados pela fome de riquezas de portugueses e, especialmente, espanhóis, autores de uma cruel matança para saciar a ganância e a sede por metais preciosos.

O dolo destes grupos de europeus é surpreendente: para quem pensa que a guerra bacteriológica é coisa moderna, houve casos em que vestimentas de conquistadores acometidos por doenças como varíola foram dadas “de presente”, a chefes indígenas. Resultado: extermínio de toda a tribo e de outras circunvizinhas, já que aqueles povos não possuíam imunidade para as enfermidades do velho mundo.

Documentos indicam que, num primeiro momento, houve um deslumbramento desses europeus quanto à organização política, social e econômica dos povos encontrados no continente americano. Os relatos dizem respeito, também, às belas e imponentes construções, à organização estrutural das cidades. Passada a admiração inicial, a ordem foi destruir e se apropriar das riquezas daquelas civilizações.

Ruínas de Machu Picchu - Peru

Conforme o historiador brasileiro José Murilo de Carvalho (1), “aqui viviam, em 1492 [chegada de Colombo], cerca de 50 milhões de habitantes, não muito menos que a população da Europa. A Cidade do México, capital do império asteca, tinha 200 mil habitantes, mais talvez do que qualquer cidade européia. Paris tinha na época cerca de 150 mil.

Descobrimento (...), implicava em genocídio. Os 5 milhões de nativos da Hispaníola, local de chegada de Colombo, desapareceram em um século. Os 25 milhões do planalto mexicano foram reduzidos a 2 milhões no mesmo período. Nos Andes, 10 milhões tinham virado 1,5 milhão ao final do século 16. Um inegável genocídio, já denunciado na época por Las Casas em seu famoso libelo A Destruição das Índias Ocidentais".

E, no Brasil, apesar dos esforços dos jesuítas, a situação não foi diferente. Foi até pior, considerando-se a exclusão social (observe que nas reportagens sobre países latinos aparecem pessoas com fisionomias indígenas, inclusive ocupando cargos importantes, como presidência de república, ou em times de futebol ou seleções nacionais; por aqui, o grau de inclusão foi pouco ou nenhum).

Voltando à realidade atual, pode-se afirmar que a tolerância está diretamente condicionada à presença de um Estado de direito que permita a livre expressão e a uma sociedade civil devidamente educada e culturalmente sabedora das normas jurídicas de direitos individuais.

Isto porque a natureza humana dá fortes indícios de que a convivência pacífica com o outro é uma relação instável, que varia conforme os atores, a época, a lingua, a cultura e o pensamento, sem falar de grupos dominantes que instigam confrontos para atender determinados interesses.

É sempre bom lembrar que há indícios científicos de que a humanidade teve apenas um ancestral, que a raça humana é uma só.

O cientista brasileiro Sérgio Danilo Pena (2) lembra que os genes que determinam as características físicas são insignificantes. Apenas representam adaptações biológicas a uma determinada geografia.

Por exemplo, a pele escura é uma defesa para o excesso de sol. Ao migrar para ambientes onde o sol é mais fraco, como a Europa, os humanos passam a nascer com pele mais clara. As diferenças físicas são uma questão de adaptação do corpo ao ambiente, ou seja, praticamente não existem.

1. Carvalho, José Murilo de. "O encobrimento do Brasil." São Paulo: Folha de São Paulo, 03 de outubro de 1999.

2. Revista IstoÉ – 18 de novembro de 1998.

Ilustração: Ruínas de Machu Picchu, capital do inca se estendeu da Colômbia ao Chile e teve seu centro no Peru.

Everaldo Goes – jornalista e historiador – everaldo@uefs.br

31/3/11

(Texto publicado pela primeira vez em julho de 2008)

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