Enquanto a grande imprensa enfoca o mundo
islâmico, acusando aqueles povos da prática da
intolerância, no Brasil, inclusive na Bahia e até
mesmo em Feira de Santana, têm-se observado o fenômeno
da rejeição do outro, mesmo que sem motivos
aparentes ou significantes.
Professores universitários
acusam situações em que jovens formam grupos
exclusivistas, ora de segmentos religiosos, de classes sociais,
de cursos de graduação tidos, equivocadamente,
como superiores a outros, ora de grupos étnicos.
Não é incomum
o preconceito demonstrado contra colegas que conseguiram acesso
ao ensino superior através das políticas afirmativas,
também chamadas de sistema de cotas, como as praticadas
por instituições como a Universidade Estadual
de Feira de Santana (Uefs), elogiadas e consideradas por especialistas
como uma das mais inclusivas do país.
No grupo de vítimas
da intolerância estão os indígenas (considerando-se
todos os povos habitantes das Américas antes do descobrimento).
Trata-se de um capítulo à parte no contexto
da intolerância e do poder. Trata-se de um caso de “segurança
nacional”. Por quê? Simplesmente porque na condição
de primeiros habitantes do continente e na hipótese
de, hoje, adquirirem cidadania, formação superior,
inclusão social e conhecimento sobre as engrenagens
do Brasil de cá, os índios poderiam começar
a reivindicar direitos e, conseqüentemente, o que foi
expropriado dos ancestrais. “Melhor, então, deixá-los
onde estão”, pensam alguns.
Qual a origem deste preconceito?
Habitantes das Américas, os índios tiveram antepassados
dizimados pela fome de riquezas de portugueses e, especialmente,
espanhóis, autores de uma cruel matança para
saciar a ganância e a sede por metais preciosos.
O dolo destes grupos de europeus
é surpreendente: para quem pensa que a guerra bacteriológica
é coisa moderna, houve casos em que vestimentas de
conquistadores acometidos por doenças como varíola
foram dadas “de presente”, a chefes indígenas.
Resultado: extermínio de toda a tribo e de outras circunvizinhas,
já que aqueles povos não possuíam imunidade
para as enfermidades do velho mundo.
Documentos indicam que, num
primeiro momento, houve um deslumbramento desses europeus
quanto à organização política,
social e econômica dos povos encontrados no continente
americano. Os relatos dizem respeito, também, às
belas e imponentes construções, à organização
estrutural das cidades. Passada a admiração
inicial, a ordem foi destruir e se apropriar das riquezas
daquelas civilizações.

Ruínas de Machu Picchu - Peru
Conforme o historiador brasileiro
José Murilo de Carvalho (1), “aqui viviam, em
1492 [chegada de Colombo], cerca de 50 milhões de habitantes,
não muito menos que a população da Europa.
A Cidade do México, capital do império asteca,
tinha 200 mil habitantes, mais talvez do que qualquer cidade
européia. Paris tinha na época cerca de 150
mil.
Descobrimento (...), implicava
em genocídio. Os 5 milhões de nativos da Hispaníola,
local de chegada de Colombo, desapareceram em um século.
Os 25 milhões do planalto mexicano foram reduzidos
a 2 milhões no mesmo período. Nos Andes, 10
milhões tinham virado 1,5 milhão ao final do
século 16. Um inegável genocídio, já
denunciado na época por Las Casas em seu famoso libelo
A Destruição das Índias Ocidentais".
E, no Brasil, apesar dos
esforços dos jesuítas, a situação
não foi diferente. Foi até pior, considerando-se
a exclusão social (observe que nas reportagens sobre
países latinos aparecem pessoas com fisionomias indígenas,
inclusive ocupando cargos importantes, como presidência
de república, ou em times de futebol ou seleções
nacionais; por aqui, o grau de inclusão foi pouco ou
nenhum).
Voltando à realidade
atual, pode-se afirmar que a tolerância está
diretamente condicionada à presença de um Estado
de direito que permita a livre expressão e a uma sociedade
civil devidamente educada e culturalmente sabedora das normas
jurídicas de direitos individuais.
Isto porque a natureza humana
dá fortes indícios de que a convivência
pacífica com o outro é uma relação
instável, que varia conforme os atores, a época,
a lingua, a cultura e o pensamento, sem falar de grupos dominantes
que instigam confrontos para atender determinados interesses.
É sempre bom lembrar
que há indícios científicos de que a
humanidade teve apenas um ancestral, que a raça humana
é uma só.
O cientista brasileiro Sérgio
Danilo Pena (2) lembra que os genes que determinam as características
físicas são insignificantes. Apenas representam
adaptações biológicas a uma determinada
geografia.
Por exemplo, a pele escura
é uma defesa para o excesso de sol. Ao migrar para
ambientes onde o sol é mais fraco, como a Europa, os
humanos passam a nascer com pele mais clara. As diferenças
físicas são uma questão de adaptação
do corpo ao ambiente, ou seja, praticamente não existem.
1. Carvalho,
José Murilo de. "O encobrimento do Brasil."
São Paulo: Folha de São Paulo, 03 de outubro
de 1999.
2. Revista IstoÉ –
18 de novembro de 1998.
Ilustração:
Ruínas de Machu Picchu, capital do inca se estendeu
da Colômbia ao Chile e teve seu centro no Peru.
Everaldo Goes – jornalista
e historiador – everaldo@uefs.br
31/3/11
(Texto publicado pela primeira
vez em julho de 2008)
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