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A História é Nossa
Esta seção tem o objetivo de despertar e incentivar a comunidade sobre a importância do conhecimento histórico para a construção da sociedade que desejamosLucas da Feira - Estátua para quem?Muito se falou, divulgou na imprensa, debateu, em Feira de Santana, sobre o merecimento que teria Lucas da Feira para ser homenageado com um busto, erguido em espaço público. Ele, um negro, filho de escravos, personagem da primeira metade do século XIX, tido como autor de crimes cruéis; capturado, teve a forca como pena. Independente de se pretender ou não homenagear Lucas, essa discussão é uma excelente oportunidade para que sejam evidenciadas situações de época, as quais a maioria da população não tem conhecimento.
Nos dias atuais, não é difícil encaminhar uma criança humilde para um colégio público, e quem sabe até para uma escola particular, na tentativa de proporcionar cidadania e um futuro digno. Mas, como você reagiria numa situação em que, além de ser tratado com violência, como animal e escravo, não tivesse outra opção a não ser se transformar num criminoso? Que sistema econômico e social produziram homens como Lucas da Feira, capazes de cometer atos bárbaros? Estas informações têm utilidade para compreensão e transformação da atual sociedade? Até há algumas décadas, historiadores brasileiros pintaram o episódio da escravidão no Brasil como uma perfeita sintonia entre interesses portugueses e o “braço forte” do negro que ajudou a construir o Brasil, além da participação do índio. Hoje, sabemos que a coisa não foi bem assim e muito ainda está sendo investigado. De início, podemos citar a preocupação dos portugueses em fazer com que o negro perdesse a dignidade de homem: após a captura (ou aquisição, como “mercadoria”), na África, e já no navio negreiro, ele é marcado, a ferro, no ombro, na coxa ou no peito; empilhados nos porões, muitos homens, mulheres e crianças não sobreviviam à jornada até o Brasil: documentos indicam casos de 55% ou mais de mortes (por exemplo, em 1625, um navio saiu de Angola com 297 cativos, dos quais 163 morreram). Afastado de parentes e amigos, é acorrentado e arrastado para uma terra desconhecida e hostil, na qual é considerado e tratado como um animal sem alma (só era humano na condição de criminoso, quando levado a tribunais, já que animais não podem ir a júri). Daí, então, ou se submete ao trabalho forçado e/ou apanha cruelmente; ou, ainda, se torna um criminoso; não pode criar filhos nem reclamar se alguém da casa grande se serve sexualmente de mulher e filhas; tem os deuses (de origem africana) satanizados; e muito mais... (a ganância e a forma de colonização portuguesas merecem um artigo à parte; atualmente, muitos creditam as mazelas de países latino-americanos como o Brasil à dominação norte-americana a partir do século XX; mas, as raízes dos nossos problemas são bem outras). Findada oficialmente a escravidão, na segunda metade do século XIX, os negros, que ajudaram a construir o país, são preteridos no momento de lhes conceder cidadania e trabalho assalariado: como não se precisava mais deles, muitos são mortos (chegou-se a cogitar o extermínio), outros são levados e jogados em regiões distantes, e ainda outros são expulsos para os morros cariocas (era inevitável, hoje, 120 anos depois, uma situação como a que o Rio de Janeiro enfrenta). Para o trabalho assalariado dá-se preferência a italianos e japoneses. Os negros são, então, condenados definitivamente a sub-raças. Se não fossem extintos, deveriam ser esbranquiçados e convencidos da inferioridade, através de estratégias legitimadas pelas teorias dos institutos históricos e geográficos e de medicina. Hoje, japoneses são homenageados pelos 100 anos de chegada ao Brasil; tratou-se de proporcionar espaços (terras para cultivos) para italianos, alemães, iugoslavos... Para os negros, que “ajudaram a construir esta nação”, a cidadania ainda está em fase de construção, mesmo assim mediante a imposição de leis contra a discriminação racial, dentre outros. Falar de estátua para Lucas da Feira pode até mesmo ser uma aberração. No entanto, o que dizer dos bustos erguidos para personagens autores de crimes bárbaros contra a humanidade ocorridos aqui, mesmo, no Brasil? Hoje, poucos se manifestam em ocasiões em que pessoas são absolvidas depois de queimarem índios dormindo em via pública ou de espancarem e matarem mulheres para “limpar” a sociedade, desde que os criminosos tenham recursos suficientes para pagar advogados ou favorecer terceiros de alguma forma. Quem, então, merece ser homenageado com estátua? Dica de leitura: Ilustração: Feitor castigando escravo – Jean-Baptiste Debret Everaldo Goes – jornalista e historiador (everaldo@uefs.br). FSA, julho/2010 (publicado pela primeira vez em junho de 2008) Arquivo |
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