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A História é Nossa

Everaldo Goes Jornalista e Historiador

Esta seção tem o objetivo de despertar e incentivar a comunidade sobre a importância do conhecimento histórico para a construção da sociedade que desejamos

Espantam as declarações do coordenador
de Medicina da Ufba?

[Texto publicado pela primeira vez em junho de 2008 em sites e jornais impressos de Feira de Santana]

Nos últimos dias, foram repercutidas nacionalmente as declarações do coordenador do curso de Medicina da Ufba, Antônio Dantas, as quais atribuíram o desempenho insatisfatório dos alunos da Instituição no Enad ao que chamou de baixo QI (quociente de inteligência) dos baianos.

Para a maioria das pessoas, tais afirmações causam surpresa e espanto, mas não para quem está antenado com aspectos da nossa história, os quais a história oficial não conta. Não que os historiadores concordem que baianos têm baixo QI, nada disso. O que o professor fez, provavelmente, foi deixar escapar, espontânea e inconscientemente, o pensamento de parte das classes dominantes baiana e brasileira a respeito da população, em especial a afro-descendente, sentimento este resultado e herança do método escravista de colonização portuguesa.

Analisemos alguns dados. Primeiro, o coordenador de Medicina da Ufba tenta atribuir aos alunos a “culpa” pelo fracasso no exame, numa forma de se eximir de responsabilidades. Em seguida, talvez por perceber, tardiamente, que dera um “fora”, pois também é baiano e tem amigos e parentes baianos, provavelmente de maioria não-negros, ele faz referência à musicalidade baiana como forma, no nosso entendimento, de direcionar o “baixo QI” para um determinado grupo, que pratica música através instrumentos de percussão e de uma corda só, grupo este formado, na maior parte, por afro-descendentes. Cita o berimbau, instrumento utilizado na capoeira.

Há de se ressaltar que a prática da capoeira, inclusive, em plena Salvador, já resultou em prisão, na primeira metade do século XX1. Para terminar, acha graça da repercussão nacional que o caso tomou e diz que tudo isso, “para mim, é terapia”.

Este tipo de visão de uma determinada classe em oposição a grupos excluídos pode ter sido construído no momento crucial que foi a libertação dos escravos, no final do século XIX, e que resultou em problemas de integração do negro e do mestiço emancipados, sua assimilação e aceitação pelo grupo branco.

Não seria preciso citar aqui os absurdos praticados pelos portugueses ao ressuscitar a prática da escravidão durante a colonização para sustento da própria ganância, com aval de grupos interessados no lucro, que afirmavam que negro não tem alma, e, por isso, teria que ser escravizado para se purificar. O fato é que, após a abolição, subsistiram representações e estereótipos associados à cor e às diferenças raciais forjadas no tempo da escravidão, como, por exemplo, a afirmação da inferioridade mental, moral ou social do negro em relação ao branco.

Estas atitudes foram até amenas, diante de outras propostas que chegaram a ser sugeridas no pós-abolição. Por exemplo, houve quem defendesse até mesmo o extermínio, não só de negros (estes, na opinião da classe dominante, não tinham direito ao trabalho assalariado; a alternativa foi a importação da mão-de-obra européia e asiática, como italianos e japoneses), como também de índios. Aliás, isto não seria novidade: os portugueses gostavam de carnificinas para manter o poder – exemplo disso foi o Quilombo de Palmares. Há quem diga que a Argentina praticou, mesmo, o extermínio – procure, na internet, por “extermínio de negros na Argentina”.

Felizmente, optou-se pela miscigenação, não apenas para embranquecer a população brasileira, como também para enfraquecer a comunidade negra. O Brasil, a partir do final do século XIX, foi transformado num grande laboratório racial, num país de raças híbridas, e que encontrava boa acolhida entre nossos intelectuais - juristas, médicos, literatos, naturalistas3. Mesmo assim, foi espalhado, pela sociedade brasileira, noções de superioridade racial, presentes até os dias de hoje.

Seria impossível, aqui, expor toda a pesquisa acadêmica sobre o assunto. Nosso objetivo é despertar o interesse dos leitores sobre temas da nossa história, para compreensão da contemporaneidade, principalmente em momentos em que estão em evidência assuntos como a intelectualidade dos baianos. Tais discussões, na maioria das vezes, são restritas à academia.

Para quem deseja se aprofundar no assunto, aqui estão duas sugestões de obras que tiveram trechos aqui utilizados:

1. Dissertação de Mestrado: Capoeiristas na Cidade da Bahia, de Josivaldo Pires de Oliveira, o contra-mestre feirense de capoeira Bel.
2. Costa, Emília Viotti da. Da Senzala à Colônia. 4ª edição. São Paulo: Ed. Unesp, 1998.
3. Schwarcz, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993
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Feira Hoje - Jan/2011

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