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A História é Nossa

Everaldo Goes Jornalista e Historiador

Esta seção tem o objetivo de despertar e incentivar a comunidade sobre a importância do conhecimento histórico para a construção da sociedade que desejamos

A desestruturação da família – existem culpados?

Pessoas de determinadas gerações mostram-se perplexas com as rápidas e surpreendentes mudanças na sociedade, uma delas a desestruturação da família, os casamentos entre homossexuais, a adoção de crianças por estes grupos, etc.

Religiosos atribuem isso e muito mais ao diabo, outros à falta de amor e de vergonha, alguns culpam a si mesmos por não conseguir manter a própria família unida, cultivando o sentimento de que falharam. Muitos não arriscam qualquer explicação.

Será mesmo que alguém deve se sentir culpado por não ter conseguido manter unida a própria família? De quem foi o fracasso? Existem, mesmo, culpados? Se fossem um caso ou outro de lares desfeitos, podia-se atribuir a uma ou outra pessoa o fim de um casamento. Mas, quando mais de 50% das uniões se desfazem como castelos de areia, há algo acima da simples vontade humana, que não se pode enfrentar. E, obviamente, a responsabilidade não é isolada.

Boa parte dos hoje vivos, com 40 anos ou mais, conviveu com uma intensa vida familiar, seja dentro de casa ou nos encontros de famílias, de irmãos, tios. Tiveram pais que sempre viveram (e morreram) juntos.

Para a compreensão do que está envolvido na crise familiar, é necessário entendermos que nem sempre a família teve o modelo que até há poucos anos conhecíamos e era considerada a ideal: marido, mulher, filhos (a família nuclear). Este modelo foi construído por uma necessidade de um sistema econômico e social iniciado no século XVIII, com o surgimento do industrialismo. Uma das características desta nova sociedade foi a dependência ainda mais intensa da mulher em relação ao homem, como donas de casa.

Infelizmente (ou não), o homem é passageiro do trem dos interesses econômicos e pouco ou nada se pode fazer para mudar isso. Por mais aconchegante que pudesse parecer a família nuclear, hoje é inadmissível pensar na mulher somente em casa, lavando pratos, cuidando dos filhos.

A indústria precisava de um trabalhador que, ao sair da fábrica, fosse ao mercado comprar mantimentos para a família. Hoje, muitos trabalhadores sequer precisam ir à empresa. Podem trabalhar em casa, mesmo, e encaminhar planilhas e relatórios via internet. A mulher quebrou barreiras; os filhos estão cada vez mais cedo independentes.

A família nuclear poderia resistir às mudanças? A história pode recuar? Para isso, teríamos que destruir toda a tecnologia hoje existente; e bloquear o setor de serviços; destruir os veículos de comunicação descentralizados, que não mais unem o país de norte a sul com uma única mensagem; forçar mulheres a voltar à cozinha e abandonarem seus empregos; impedir que jovens cheguem a mercado de trabalho para não ficarem independentes e continuarem sob as barbas do pai e da saia da mãe. Tudo isso, e muito mais, seria possível? É este o bonde em que todos nós estamos.

Antes da revolução industrial, a estrutura familiar era outra, bem diferente da família nuclear que conhecemos e que está morrendo. Existiam, aliás, diversos modelos de famílias, cujos protagonistas não conseguiram manter aqueles modelos. Mudou para melhor? Para pior? Não se sabe. Mas, não se pode atribuir mazelas como as drogas e a violência à desestruturação da família nuclear. Com ou sem a família, estas ameaças à sociedade poderiam continuar a existir e até se expandir. Para a população, é importante que venham à tona estas discussões, para redução de angústias e de culpas, através da compreensão dos dias atuais.

Dica de leitura:
Toffler, Alvin. A Terceira Onda. Rio de Janeiro: Record. 2007.
Everaldo Goes – jornalista e graduado em História.
everaldo@uefs.br

4/1/11 (publicado pela primeira vez em junho/2008)

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